Muito barulho por nada : Nova música de Anitta faz Tom Jobim revirar no caixão, de ódio.

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Capa do single 'Girl from Rio', de Anitta — Foto: Mar + Vin

Capa do single ‘Girl from Rio’, de Anitta — Foto: Mar + Vin

Resenha de single

Título: Girl from Rio

Artista: Anitta

Compositores: AnittaGaleRayeTor Erik Hermansen e Mikkel Storleer Eriksen

Edição: Warner Music

Cotação: * * * *

♪ Haters poderão argumentar sem razão, ao ouvirem o single Girl from Rio, que Anitta provocou muito barulho por nada. Haverá também os apegados ao glorioso passado da música brasileira que acusarão a artista carioca de estar se apropriando do standard planetário de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e Vinicius de Moraes (1913 – 1980) para aparecer e causar.

Em rotação desde a noite de quinta-feira, 29 de abril, após uma semana de memes criados a partir da capa idealizada por Giovanni Bianco com foto de Mar + Vin, o single Girl from Rio pode até nem provocar o frisson de um blockbuster como Vai malandra (Isaac Daniel, Anitta e Brandon Green, 2017) – e, sim, o impacto é menor do que o causado por esse funk que propagou a imagem de um Brasil sem filtro.

Ainda assim, Girl from Rio é outro atestado da sagacidade musical e marqueteira de Anitta. Cria do bairro carioca de Honório Gurgel, citado na letra em inglês da composição assinada por Anitta com Gale, Raye e a dupla Stargate, a cantora e compositora reprocessa Tom & Vinicius – ao recorrer à melodia do samba Garota de Ipanema (1962) – para veicular a imagem de um Rio de Janeiro mais real em single que alterna a batida da bossa nova com a pegada do trap sem perder a ternura jamais.

Samba genial que vende ao mundo a imagem romantizada de um Rio ensolarado, sensual e cheio de graça, um Rio com a bossa de 1962, Garota de Ipanema é um dos símbolos que identificam o Brasil no mapa-múndi musical desde 1964, ano da gravação feita com a voz de Astrud Gilberto para o álbum Getz / Gilberto com a letra em inglês de Norman Gimbel (1927 – 2018), ignorada por Anitta.

Anitta se utiliza da melodia de Garota de Ipanema – alternada no single com a inédita parte do trap que também dita o ritmo da gravação produzida pela dupla Stargate – para dar voz à outra letra com versos em que a cantora desconstrói padrões femininos de beleza e mostra “um Rio diferente” em que a felicidade também é possível além dos cartões-postais da zona sul carioca (não por acaso, o clipe do single Girl from Rio tem cenas filmadas no Piscinão de Ramos, área de lazer da periferia carioca).

Girl from Rio exalta o outro lado da cidade partida, o Rio das favelas, das garotas que põem bebês no mundo, sendo, elas mesmas, ainda crianças. Um Rio feliz na medida do possível.

Musicalmente, o single masterizado por Chris Gehringer flui harmoniosamente. A alternância da bossa com trap acontece de forma natural, sem que a melodia de Garota de Ipanema soe como alien na gravação de três minutos e 13 segundos.

Música-título do quinto álbum de Anitta, produzido por Ryan Tedder e previsto para ser lançado até o fim deste ano de 2021, Girl from Rio é de fato a música mais pessoal da artista, como Anitta vinha alardeando em redes sociais. A letra versa até sobre a descoberta tardia de um irmão da cantora.

Por mais que tudo (a letra com referências familiares, o clipe, o uso do samba de Tom & Vinicius e a incursão pelo trap) pareça ter sido calculado nos mínimos detalhes, e foi mesmo porque é assim que funciona a indústria da música, sobretudo no século XXI, paira acima de tudo a inteligência de Anitta para fazer um single que dialoga com o mundo ao mesmo tempo em que olha para o umbigo carioca da estrela já internacional.

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